Recordações...
A vida é feita do ontem que foi, do hoje que é e do amanhã que será.
Lembro-me bem daquela canção cantada por António Calvário: " Ó tempo volta para trás...olha que até o próprio sol volta todas as manhãs".
O sol volta, quando volta, o tempo é que não.
Olho para o espelho e timidamente, receando a resposta, arrisco a pergunta.
-Espelho meu, achas que eu ainda consigo ser beijado por uma princesa que, de sapo, me transforme em príncipe?
Os espelhos guardam no seu inconsciente colectivo todos as expressões de ansiedade que se estampam no rosto de quem se aproxima perigosamente do término da meia idade.
O meu espelho, que é sabido,resolveu brincar ás adivinhas.
-Sabes-perguntou ele-o que representa um piolho na tua cabeça?
-Não-respondi eu, intrigado com a pergunta.
-Um sem abrigo- e soltou uma gargalhada que fez estremecer toda a minha estrutura emocional.
Vendo o meu ar descoroçoado e reconhecendo ter usado uma linguagem demasiado ferina optou pela blandícia, não fosse eu cair ali, redondo no chão, vítima de paragem respiratória.
-Alegra-te !!!Tirando a falta de revestimento do couro cabeludo, algumas rugas faciais que tentas disfarçar com um creme revitalizante "for men"e essa ligeira proeminência ventral, tens muito bom aspecto.- E riu-se disfarçadamente...
Recuemos no tempo.Voltemos ao distante Abril de 1974, á juventude dos meus 22 anos.
A minha figura musculada e o meu ar angelical, fruto do tempo que havia passado no seminário, davam-me uma aparência de conquistador.
Mas ali, debaixo daquele escaldante sol africano, com a G-3 na mão e o medo no coração, as únicas coisas que havia para conquistar eram, terreno minado, emboscadas em cada trecho da floresta e "turras" escondidos que defendiam o que era SEU, quando eu acreditava que era NOSSO....
Estávamos em Camquelifá, na fronteira entre o Senegal e a Guiné-Conakry. A maior parte de nós era virgem...no sentido político do termo. Eu nem sabia que a Pide era uma entidade tenebrosa, único sustentáculo de um regime decadente e internacionalmente isolado. Acreditava estar ali para defender a pátria.
Mas havia alguns, soube-o mais tarde, que, pelas ruas de Lisboa, tinham fugido dos jactos de tinta da polícia politica.
Esses sabiam que a BBC transmitia todas as noites um programa, em português, feito pelos opositores ao regime e que se encontravam exilados em países estrangeiros.
Na noite de 25 de Abril de 1974, num quartel militar em plena selva africana, um grupo de furriéis milicianos, reunidos á volta de um pequeno rádio a pilhas, para escutar mais uma vez a BBC, deixou escapar um grito de esperança e um desejo de liberdade.
-Golpe de estado em Lisboa !!!
Desse grupo de camaradas, recordo-me melhor do Drumond. Nunca mais o vi...Um abraço para todos...onde quer que estejam...
A Guiné-Bissau é um pequeno país africano com cerca de 36.125 Km2 e menos de 1 milhão de habitantes. Os portugueses aí chegaram em 1446 e aí permaneceram até 1974. A luta armada contra a presença colonial portuguesa começou em 1963, organizada pelo P.A.I.G.C ( Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Liderava esse movimento, o engenheiro agrónomo, Amilcar Cabral.
No dia 24 de Setembro de 1973, em Madina de Boé, meses depois de Amilcar Cabral ter sido assassinado, foi proclamada a República da Guiné-Bissau. No espaço de um mês, 66 países reconheceram o novo estado. Portugal só em 1974, após um golpe de estado,reconheceu essa independência e iniciou o processo de descolonização.